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Conceição Gonçalves

Passos na minha vida
A minha sensibilidade ao valor do espírito comunitário, amizade, interajuda, remonta à infância numa pequena aldeia da Beira interior. Observei ali desde a idade mais tenra, no seio da família e no convívio com o povo que o trabalho duro, a entrega aos outros, a comunhão nos momentos da doença e do luto, traz compensações pessoais e coletivas gerando uma alegria interior, um acreditar na vida, um saber ultrapassar quando a desventura nos toca em direto.
Também senti que a harmonia geral que nos fazia felizes, não decorria exclusivamente dos humanos. Entravam nela o amor aos animais de trabalho e de estimação, os arvoredos, os campos semeados ou prontos para as colheitas e até os rochedos que nos ladeavam e para nós se transformavam em escorregas, pistas de alpinismo ou abrigos às intempéries no tempo invernio. Vivíamos em pleno na natureza.
Tudo isto era sublimado e fortalecido pela Fé e religiosidade que os adultos transmitiam enquanto crescia. Foi assim até à 4ª classe. Os valores deste percurso constituíram a raiz do que apelidamos de currículo.
1955 – Fui viver na cidade da Guarda para frequentar o Liceu Nacional (não havia transportes).
1963 – Conclui o Curso do Magistério Primário e lecionei cerca de um ano e meio em aldeias raianas Experiência inesquecível num povo analfabeto, chefes de família emigrados. Amei e acarinhei aquelas crianças e suas mães, de quem recebi muitos momentos de alegria e conforto.
1965 – Deixei a escola para fazer formação espiritual e teológica em Braga no Noviciado do IRSCM. Uma experiência no convento que abria asas a um sonho de entrega num espaço mais amplo para colaborar na criação de um mundo melhor.
1968 – Enquanto ampliava os estudos em várias árias, desempenhei várias lideranças, trabalho docente no sector secundário do Colégio do SCM. Fortaleci a dimensão espiritual da vida a sós e em comunidade. Trabalhava agora num meio social oposto ao das aldeias raianas. Parte da minha intervenção nesta etapa de vida encontra-se reportada, atribuindo-me o nome fictício de Irmã Cecília, no romance histórico de uma ex-aluna: Joana Leitão de Barros,” Irmandade Invisível – Leya,2024”.
1975 – Transitei para a Escola Pública. Liderei projetos pedagógicos complementares à docência e integrei equipas diretivas nas escolas Secundárias por onde passei: Marquês de Pombal e Miraflores Casei e vivi a alegria do nascimento dos meus filhos Catarina e Tiago.
2005 – Os Sem Abrigo através da Comunidade Vida e paz. Após 36 anos de docência, a passagem à aposentação abriu portas para outros voos. Foi o tempo da comunhão dorida com os mais excluídos de entre os excluídos, os Sem Abrigo. Na sua maioria jovens, esperavam nos recantos das ruas de Lisboa, à hora certa, esperando uma refeição seca acompanhada de uma palavra de carinho e confiança.
Assisti comovida ao renascer de algumas vidas cujos talentos de nobreza se haviam afundado na lama das ruas.
NOVA ATENA: Tendo cessado o trabalho voluntário na Direção da CVPaz, surgiu a disponibilidade para fundar Nova Atena.
Juntamente com a colega Maria Adelaide Duarte assumi a iniciativa de a fazer nascer. Aconteceu no dia 12 de abril de 2008 em Assembleia Constituinte.
Inicialmente, uniu-nos a ideia de criarmos condições técnicas e logísticas para as aulas de História da Arte, que ambas lecionávamos numa U.S. Em breve, porém, o pensamento voou para a criação de um espaço convivial, marcado pelo interesse pela cultura, afeto e solidariedade, aliado ao desejo de acolher/incluir, todos os que viessem, independentemente das suas convicções (N. A. é apartidária, não confessional) Queríamos oferecer às pessoas em inatividade profissional a possibilidade de continuarem a ser ativas e felizes. Já com a colaboração de António Praça, redigimos os Estatutos para que fosse fundamentalmente uma Associação de solidariedade social usando como meios, a cultura e a arte. Em 3 de junho a Direção eleita no dia da fundação, assinava o registo notarial.
Os encantos e desencantos desta etapa fundadora encontram-se descritos no livro Dias felizes.
Passados seis anos, conforme os estatutos, cessei funções diretivas, mas continuei ativa a receber e dar aulas de História da Arte.
Aos 82 anos ainda estou aqui!
Disciplinas que leciona:
Arte em Direto
